POESIARCOS - 2


francisco arcos


Francisco Arcos

POESIA INÉDITA

LIVRO 3

O CERCO DO SOL






LIVRO EM PREPARAÇÃO À DATA DE NOVEMBRO/2007












O CERCO DO SOL









Envolvido pela película do tempo há muito me debato
( e jamais me liberto )
dessa húmida mucosa que me tolhe a hipótese de ser alguma coisa mais
que um mero extracto
de um Cosmos embrionário, eternamente inacabado e nunca longe nem perto
da dimensão exacta dos infinitos espaços siderais.

O cerco é prolongado e essa demora
devo-a afinal à minha própria ânsia
que à medida que o Sol se autodevora
lhe restaura com versos a substância.



















QUADRO DESALINHADO NA PAREDE AO FUNDO









Dei conta disso quando, alheado do que ela me dizia ao ouvido,
por cima do seu ombro passeei os olhos pelo quarto de aluguer.

Depois, envergonhado e já arrependido
por ter que abandonar essa mulher
( que talvez me houvesse segredado que me quer e ama ),
deixei-a sentada aos pés da cama
e regressei ao mundo;
mas, antes de sair, com um rápido e hábil gesto controlado,
deixei também o quadro na parede ao fundo
perfeitamente alinhado.




















TRANSFUSÃO









O líquido, que embebe o poema, transfundi-o,
para que a fome de sol jamais o deixe,
de um mítico animal de sangue frio,
nem réptil nem peixe ,
que nada bem no fundo, junto ao lodo,
do caudaloso rio
que é parte do meu todo.

E nem o silêncio estelar embarga a clandestina viagem,
que a poesia assume
através de um universo onde há astros esfomeados de lume
e gravidades que não interagem.



















O TRIUNFO DE CERTA SEDE









Pelos interstícios do tempo ( feita luz ) se escoa
a eternidade que o Cosmos configura

Para o poeta essa escorrência é fétida e letal;
mas bebe-a à toa,
porque a secura
é ainda o pior mal
de entre tudo o que no íntimo o magoa.


Uma estranha compulsão de maré viva de Agosto
antecipadamente celebra um falso solstício,
em honra do sol-posto;
enquanto, à pressa, um infinito silêncio calafeta o último interstício.

















CAÇADOR DE ACORDES









Unta com visco um pentagrama e aguarda,
escondido no meio das estrelas, que lá poise ou algum deus coloque
um acorde perfeito ( ou dissonante ), que possas pendurar como um berloque
numa das muitas jóias, que há por lá em barda;
se o fizeres com o máximo rigor
poderás ser um músico de jazz – seja lá isso o que for.




.




















SUBITAMENTE, VAN GOGH









Entre a luz e o rosto,
a aba larga do chapéu de palha
deixa na sombra aflito o olhar há muito posto
nos confins da paisagem, onde a cor encalha.

Depois é só torcer o céu,
como quem torce roupa, e manter lá suspensa, a crocitar, a gralha
que transforma a seara em corpo de mulher abandonado ao léu.



-



















UM NÓ NO LENÇO









Amortalhadas, cada uma em seu próprio nome,
jazem algures em mim as coisas – tudo, afinal,
o que com meus nervos tentaculares abranjo e caço
para enganar a fome
essencial
que sem remédio passo.

( É a preciosa escória
do meu ser. )

Daí o nó que há muito dei no lenço da memória,
para me lembrar disso ao falecer.
















POEMA EXCÊNTRICO









Nas espirais das galáxias e na das conchas
dos univalves, me deslumbro e viajo,
de asas tronchas
e nu de qualquer trajo,
tragicamente centrífugo e solar.

E só irei parar
quando estiver bem dentro
do único ponto da tangente
que me garanta atingir directamente
o anticentro.
















OLHAR VIDRADO









Na imensa falésia
do tempo por medir
nem uma única angra
se abre ao mar desta atávica amnésia
que me abandona entre o zénite e o nadir
- feito coisa que sangra – ,
transformando os poemas em insaciáveis sedes
e a retina do poeta na mais cega das paredes.


















BREVE CONVÍVIO COM INSECTOS INESPERADOS









Nas hastes destes juncos, onde o estio arde,
prolonga-se a agonia das libélulas
que desovam, de asas abertas, inteiramente dadas à luxúria da tarde.


Daí a força que meu ser domina
desde o núcleo das células,
onde a semente do tempo se lá cai germina,
até à flor da pele, que a si mesma se inventa,
perante um infinito que só existe à custa
do que a nossa natureza lhe acrescenta.

À tona do paul a própria luz se manifesta e barafusta
contra o anonimato assumido pelas coisas.

E tu, que a voar a tudo isto assistes,
porque não deixas o poema inacabado e finalmente poisas
num destes juncos tristes ?












BECO DO FALA – SÓ









Desprezo o poeta - sândalo
que se infiltra na gente por esconsa porta
para fazer de nós comparsas desse escândalo
que é perfumar a lâmina que o corta.



























EM PLENA ORLA MARÍTIMA DO TEMPO









Demorarmos o olhar
na contemplação exaustiva do que vemos,
é um meio de podermos abarcar
tudo o que existe no intervalo dos extremos
dentro dos quais o ser das coisas é.


Dessa demora, porém, advirá o atraso
que há-de vitimar-nos depois, quando a maré
subitamente subir, deixarmos de ter pé,
e o tempo vier afogar-nos como se tudo se desse por acaso.



















QUANDO OS GELOS QUEREM SER CAUDA DE COMETA









Comemoremos com sangue e júbilo esse dia
em que fomos expulsos
de um ventre onde, inventando o prazer, o sol procria
por interposto ser;
e nos deixa depois deambulando, avulsos
e de asas atrofiadas, através
da maior dimensão que o cosmos possa ter.


Comigo, foi como se caísse,
com toda a poesia do mundo atada aos pés,
de um colo maternal, todo meiguice,
para o mais gelado e inabitável fiorde
da minha mente,
onde o sonho se gera, cria e sente,
sem que o silêncio das estrelas nos acorde.















EXERCÍCIOS PARA POEMAS DE PERCUSSÃO



1-




Pensar a Poesia é como estrangulá-la

para cobardemente a violar depois:



Poetas, por quem sois,

desisti do mistério e da cabala

e renunciai, por uma vez, às soluções extremas

de improvisar asas em cavalos

e, ao mesmo tempo, inventar gargalos

que dificultam o jorro natural dos poemas.














UM MERO CASO DE DRENAGEM DEFEITUOSA









Antes que os bueiros da alma, para onde escorrem os poemas,

se entupam para sempre com os fragmentos de silêncio e de outros lixos,

que a enxurrada do tempo para lá transporta,

deixemos livremente fluir nossas canções mais intimas e blasfemas

pelo corpo da feminina noite sideral, desde os seios e coxas às goelas dos bichos,

que à sua sombra procriam à pressa atrás de qualquer porta.




Inundado de angústia e amordaçado em sua condição de autoproscrito,

um poeta é a única Coisa que mantém intacto o Infinito.













RESTOS DE UM FESTIM ERÓTICO









Com os nós dos dedos fui bater-te à porta,
mas quem a abriu não foste tu,
porque já estavas morta,
afogada dentro do teu próprio nu
e abandonada no átrio duma cópula interrompida
por uma inesperada erupção solar ).


Invertido o sentido da espiral cósmica expandida,
o que nos resta senão deixarmo-nos ficar
em plena turba
a dissolvermo-nos nela como num mar
que narcisicamente se masturba ?


( É a memória, quase extinta,
quem se debate, como se fora um peixe,
por entre as malhas deste poema - até que eu deixe
e o teu invólucro pessoal e intransmissível o consinta …)












POEMA BREVE NA ENFERMARIA DA LONGA INSÓNIA









A enfermeira usa nas mãos luvas de borracha;

eu, um preservativo no sitio certo.



Descubro que todos os meus poemas

são ignóbeis tentativas de violação da alma,

que devem constar no registo criminal

do meu cadastro poético.



Levem-me a juízo, quanto antes.



( POEMA FEITO A OLHAR PARA UMA PINTURA SURREALISTA ALHEIA )



RESÍDUO HOSPITALAR






E nem o fogo de todas as estrelas do Universo
conseguiria cremar
este imortal e tóxico resíduo
que jaz, a céu aberto,
no espaço verde do condomínio fechado
que um poeta ecologista construíu e compartilha com seus pares:

A última perna amputada do seu sofá predilecto.











POEMA DO CAMINHO DE FERRO



Deiscente como nunca,
viajo para lá da janela embaciada da carruagem,
tentando polinizar a paisagem mental
que a boca escancarada do Cosmos fila e trunca.

Secreta vagem
de deiscência longitudinal
é o teu sexo,
onde a poesia desnudada guarda
a chave do seu nexo.

Canções inúteis, há-as em barda
em qualquer hemorragia verbal, jamais enxuta,
por onde a vida se esvai, assim como a distância
se esvai ( permanecendo ) nas paralelas dos carris de ferro;.

mas poesia – a autêntica - apenas plenamente se executa,
quando tuas coxas de mulher estão em consonância
com os quadris do meu corpo e em ti, enfim, me encerro.



















QUARTETO DE SOPRO

1 . BREVÍSSIMO SOLO DO CLARINETE







Farejo ávido o tapete
que os teus pés descalços e nocturnos vão tecendo enquanto vais
ao encontro da mais longínqua das estrelas ( escondida
no insondável interior do clarinete).

As nódoas que farejo, não são sinais
que augurem vida,
mas presságios de morte – manchas residuais das hemoptises
de um sol a agonizar no último dos seus poentes.


Ao dedilhar as chaves meus dedos são raízes
que se recusam a nutrir sóis decadentes.





O CERCO DO SOL






Envolvido pela película do tempo há muito me debato
( e jamais me liberto )
dessa húmida mucosa que me tolhe a hipótese de ser alguma coisa mais
que um mero extracto
de um Cosmos embrionário, eternamente inacabado e nunca longe nem
/ perto
da dimensão exacta dos infinitos espaços siderais.

O cerco é prolongado e essa demora
devo-a afinal à minha própria ânsia
que à medida que o Sol se autodevora
lhe restaura com versos a substância.







































QUADRO DESALINHADO NA PAREDE AO FUNDO






Dei conta disso quando, alheado do que ela me dizia ao ouvido,
por cima do seu ombro passeei os olhos pelo quarto de aluguer.

Depois, envergonhado e já arrependido
por ter que abandonar essa mulher
( que talvez me houvesse segredado que me quer e ama ),
deixei-a sentada aos pés da cama
e regressei ao mundo;
mas, antes de sair, com um rápido e hábil gesto controlado,
deixei também o quadro na parede ao fundo
perfeitamente alinhado.








































TRANSFUSÃO






O líquido, que embebe o poema, transfundi-o,
para que a fome de sol jamais o deixe,
de um mítico animal de sangue frio,
nem réptil nem peixe ,
que nada bem no fundo, junto ao lodo,
do caudaloso rio
que é parte do meu todo.

E nem o silêncio estelar embarga a clandestina viagem,
que a poesia assume
através de um universo onde há astros esfomeados de lume
e gravidades que não interagem.







































O TRIUNFO DE CERTA SEDE






Pelos interstícios do tempo ( feita luz ) se escoa
a eternidade que o Cosmos configura

Para o poeta essa escorrência é fétida e letal;
mas bebe-a à toa,
porque a secura
é ainda o pior mal
de entre tudo o que no íntimo o magoa.


Uma estranha compulsão de maré viva de Agosto
antecipadamente celebra um falso solstício,
em honra do sol-posto;
enquanto, à pressa, um infinito silêncio calafeta o último interstício.





































CAÇADOR DE ACORDES






Unta com visco um pentagrama e aguarda,
escondido no meio das estrelas, que lá poise ou algum deus coloque
um acorde perfeito ( ou dissonante ), que possas pendurar como um
/ berloque


E se o fizeres com o máximo rigor
poderás ser um músico de jazz – seja lá isso o que for.




.






































SUBITAMENTE, VAN GOGH






Entre a luz e o rosto,
a aba larga do chapéu de palha
deixa na sombra aflito o olhar há muito posto
nos confins da paisagem, onde a cor encalha.

Depois é só torcer o céu,
como quem torce roupa, e manter lá suspensa, a crocitar, a gralha
que transforma a seara em corpo de mulher abandonado ao léu.











































UM NÓ NO LENÇO






Amortalhadas, cada uma em seu próprio nome,
jazem algures em mim as coisas – tudo, afinal,
o que com meus nervos tentaculares abranjo e caço
para enganar a fome
essencial
que sem remédio passo.

( É a preciosa escória
do meu ser. )

Daí o nó que há muito dei no lenço da memória,
para me lembrar disso ao falecer.







































POEMA EXCÊNTRICO






Nas espirais das galáxias e na das conchas
dos univalves, me deslumbro e viajo,
de asas tronchas
e nu de qualquer trajo,
tragicamente centrífugo e solar.

E só irei parar
quando estiver bem dentro
do único ponto da tangente
que me garanta atingir directamente
o anticentro.








































OLHAR VIDRADO






Na imensa falésia
do tempo por medir
nem uma única angra
se abre ao mar desta atávica amnésia
que me abandona entre o zénite e o nadir
- feito coisa que sangra – ,
transformando os poemas em insaciáveis sedes
e a retina do poeta na mais cega das paredes.











































BREVE CONVÍVIO COM INSECTOS INESPERADOS






Nas hastes destes juncos, onde o estio arde,
prolonga-se a agonia das libélulas
que desovam, de asas abertas, inteiramente dadas à luxúria da tarde.


Daí a força que meu ser domina
desde o núcleo das células,
onde a semente do tempo se lá cai germina,
até à flor da pele, que a si mesma se inventa,
perante um infinito que só existe à custa
do que a nossa natureza lhe acrescenta.

À tona do paul a própria luz se manifesta e barafusta
contra o anonimato assumido pelas coisas.

E tu, que a voar a tudo isto assistes,
porque não deixas o poema inacabado e finalmente poisas
num destes juncos tristes ?

































BECO DO FALA – SÓ






Desprezo o poeta - sândalo
que se infiltra na gente por esconsa porta
para fazer de nós comparsas desse escândalo
que é perfumar a lâmina que o corta.















































EM PLENA ORLA MARÍTIMA DO TEMPO






Demorarmos o olhar
na contemplação exaustiva do que vemos,
é um meio de podermos abarcar
tudo o que existe no intervalo dos extremos
dentro dos quais o ser das coisas é.


Dessa demora, porém, advirá o atraso
que há-de vitimar-nos depois, quando a maré
subitamente subir, deixarmos de ter pé,
e o tempo vier afogar-nos como se tudo se desse por acaso.








































QUANDO OS GELOS QUEREM SER CAUDA DE COMETA






Comemoremos com sangue e júbilo esse dia
em que fomos expulsos
de um ventre onde, inventando o prazer, o sol procria
por interposto ser;
e nos deixa depois deambulando, avulsos
e de asas atrofiadas, através
da maior dimensão que o cosmos possa ter.


Comigo, foi como se caísse,
com toda a poesia do mundo atada aos pés,
de um colo maternal, todo meiguice,
para o mais gelado e inabitável fiorde
da minha mente,
onde o sonho se gera, cria e sente,
sem que o silêncio das estrelas nos acorde.



































EXERCÍCIO PARA POEMA DE PERCUSSÃO






Pensar a Poesia é como estrangulá-la

para cobardemente a violar depois:



Poetas, por quem sois,

desisti do mistério e da cabala

e renunciai, por uma vez, às soluções extremas

de improvisar asas em cavalos

e, ao mesmo tempo, inventar gargalos

que dificultam o jorro natural dos poemas.


































UM MERO CASO DE DRENAGEM DEFEITUOSA






Antes que os bueiros da alma, para onde escorrem os poemas,

se entupam para sempre com os fragmentos de silêncio e de outros lixos,

que a enxurrada do tempo para lá transporta,

deixemos livremente fluir nossas canções mais intimas e blasfemas

pelo corpo da feminina noite sideral, desde os seios e coxas às goelas dos
/ bichos,
que à sua sombra procriam à pressa atrás de qualquer porta.




Inundado de angústia e amordaçado em sua condição de autoproscrito,

um poeta é a única Coisa que mantém intacto o Infinito.

































RESTOS DE UM FESTIM ERÓTICO






Com os nós dos dedos fui bater-te à porta,
mas quem a abriu não foste tu,
porque já estavas morta,
afogada dentro do teu próprio nu
e abandonada no átrio duma cópula interrompida
por uma inesperada erupção solar ).


Invertido o sentido da espiral cósmica expandida,
o que nos resta senão deixarmo-nos ficar
em plena turba
a dissolvermo-nos nela como num mar
que narcisicamente se masturba ?


( É a memória, quase extinta,
quem se debate, como se fora um peixe,
por entre as malhas deste poema - até que eu deixe
e o teu invólucro pessoal e intransmissível o consinta …)
































POEMA BREVE NA ENFERMARIA DA LONGA INSÓNIA






A enfermeira usa nas mãos luvas de borracha;
eu, um preservativo no sitio certo.

Descubro que todos os meus poemas
são ignóbeis tentativas de violação da alma,
que devem constar no registo criminal
do meu cadastro poético.

Levem-me a juízo, quanto antes.






















RESÍDUO HOSPITALAR






E nem o fogo de todas as estrelas do Universo
conseguiria cremar
este imortal e tóxico resíduo
que jaz, a céu aberto,
no espaço verde do condomínio fechado
que um poeta ecologista construíu e compartilha com seus pares:

A última perna amputada do seu sofá predilecto.































POEMA DO CAMINHO DE FERRO






Deiscente como nunca,
viajo para lá da janela embaciada da carruagem,
tentando polinizar a paisagem mental
que a boca escancarada do Cosmos fila e trunca.

Secreta vagem
de deiscência longitudinal
é o teu sexo,
onde a poesia desnudada guarda
a chave do seu nexo.

Canções inúteis, há-as em barda
em qualquer hemorragia verbal, jamais enxuta,
por onde a vida se esvai, assim como a distância
se esvai ( permanecendo ) nas paralelas dos carris de ferro;.
mas poesia – a autêntica - apenas plenamente se executa,
quando tuas coxas de mulher estão em consonância
com os quadris do meu corpo e em ti, enfim, me encerro.





















QUARTETO DE SOPRO

( BREVÍSSIMO SOLO DO CLARINETE )




Farejo ávido o tapete
que os teus pés descalços e nocturnos vão tecendo enquanto vais
ao encontro da mais longínqua das estrelas ( escondida
no insondável interior do clarinete).

As nódoas que farejo, não são sinais
que augurem vida,
mas presságios de morte – manchas residuais das hemoptises
de um sol a agonizar no último dos seus poentes.


Ao dedilhar as chaves meus dedos são raízes
e recusam a nutrir sóis decadentes.


























PUZZLE IRRESOLÚVEL






Com os cacos de mim
espalhados à sorte
num limpo céu nocturno,
tento reconstruir o espelho todo e, outrossim,
achar quem de novo e inteiro me transporte
aos carnavais de Saturno.


E afinal num único pedaço
cabem as mesmíssimas estrelas
que se reflectiam no espelho todo.


( E se não mudo, quando em cacos me desfaço,
por quê olhá-las e querer compreendê-las ? )

E porque não adormeço, afinal, e me acomodo
se o Cosmos está codificado algures em mim
e vai continuar aí – tal como está – e muito para além de um vulgar fim .?




















VIROSE ANÍMICA






Febre estriada. A neve cai sobre os espaços
que envolvem as estrelas.
- Porque amuas
se te suplico as curvas dos teus braços
esfomeados de terra como os gumes das charruas ?

Olha que é pérfido o arfar dos meus cansaços,
quando a meu lado há fêmeas palpitantes, nuas...
Se queres, eu deito ao lixo, num feixe, os nervos lassos
para de uma única tristeza fazer duas.

A febre clarifica-me as ideias,
traz-me um som que embravece um mar de areias
e deixa-me sozinho, inerte como um vidro.

A neve cai, agora, só de um lado -
- aquele que Tomé tocou, desconfiado:
Deus e tu deixarão que eu morra anidro ?





















NOITE RASTEJANTE






As sombras como répteis nauseabundos
coleiam voluptuosas pelos prados,
precipitam-se nos vales mais profundos
e vão como ladrões aos povoados.
Vestem de luto os bosques mais jucundos,
atam, aos pares e nus, os namorados,
transformando-os em tristes vagabundos,
almas penadas a correr seus fados.

E, quando a noite subtrai do espaço
a luz do dia, na penumbra faço
cálculos de álgebra em papel cinzento.

………………………………………….

Há um corso acuado que em mim se esconde.

( No entanto, faço contas para saber onde
a dor de ser se entrega ao esquecimento ).




















PROCISSÃO EM SEVILHA






Que triste o olhar das vítimas da Luz!

Lá se vão no Tempo, à flor da água, abrindo
longínquos dedos pelo azul infindo,
rasgando nuvens, pondo os astros nus.

Hirto marfim, lá vai também Jesus;
que vai de branco - a paz em dor florindo...
Como vai casto ! Como escorre lindo
do colo de Maria ! ( As mãos em cruz ).

Para trás ficam os Calvários rotos
de ânsia puída, como calças velhas
de vadios e sórdidos garotos.

E o cortejo lá vai, fúnebre e exótico,
enquanto a chuva escorre de mouriscas telhas
tomando a forma do mais puro gótico.





















VOZ ÀS ESCURAS






A voz, que ainda oiço, tem alguém perdido nela
e só a entende quem achar que o muito é sempre pouco:
Por exemplo, o Mar ( ou quem como ele é mouco ).

Por mim, só posso ouvi-la e entendê-la de roupão de flanela
e em chinelos de quarto, bebendo água de coco
e contemplando, em transe, Budas com barbela
e de ventres enormes, que reciclam o que falta a tudo
/ quanto é oco.

E à noite, quando a sombra se imiscui na farsa hedionda
da própria noite, então, ouvi-la-ei dentro das coisas,
dizendo-me o porquê de a mágoa ser redonda.

À noite, sim, quando houver lapsos de ânsia ao longo das estradas
e o luar tiver vágados e cair na sombra das latadas,
então será possível traduzir os silêncios que apodrecem sob as loisas !






















“ Ó VIRGENS QUE PASSAIS AO SOL POENTE ..."
( ISTO É, NA CABEÇA DO MEU VELHO AMIGO A. NOBRE )





Quando percorro ansiosamente os montes
para fugir das mãos brancas e frias
destas paisagens pérfidas, sombrias,
que me querem atar aos horizontes;
quando as estradas ermas e sem fontes,
paralelas, hipnóticas, esguias,
fazem lembrar tuberculosos dias,
onde há inglezinhas magras de alvas frontes,
meu coração circense, bem treinado,
ora rasteja, ora se torna alado -
- a mesma arena, o mesmo trampolim.

E, como sempre, quando o sol agonizar,
incandescer.-se-ão os néons de um bar,
vomitando sombras na viela e em mim.
























HORA PUNGENTE






Passam nuvens de pó que o vento arrasta
e atira contra mim numa vertigem.

Andam no ar palavras sem origem,
gritos sem mãe em busca de madrasta.

Nos sons dispersos, com os quais me atingem,
há algo errado que de mim se afasta,
enquanto os céus, à força de vergasta,
lorpas poemas épicos redigem.

Desfaz-se em luz a dor que à dor arranco
( meu sonho de ontem foi um verso manco ).

- Lançai fora as canções ( coisas inúteis ).

No cristal da quimera transparente
refracta-se-me a vida, num repente,
e a alma aí jaz, em dois pedaços fúteis.




















SOLUÇÃO PICASSIANA
PARA A COMOÇÃO DE UM BURGUÊS





Árvore nua, alma de cântaro, já dormes ?

O inverno veio cedo - a dor tem sempre pressa -
e a velha idiota atira ao ar pedras enormes
e vai solícita apanhá-las na cabeça.

Nem todos podem ter, tal como o Eça, - em Tormes
ou noutro lado -, um sítio, onde a bruma espessa
do tédio se dilua e revele desconformes
os absurdos do ser e os quês de quem os meça.

Velhinha idiota dos calhaus, não vês que feres
tua própria cabeça e me atinges a mim,
um cordato burguês, deixando-me sem Norte ?

Sabes que foste bela entre as demais mulheres
e que não passas hoje de um inútil bandolim
com cujas cordas ato minha mente à morte ?





















BACH NO BANHO , À FORÇA






Nas contorções do nunca há mil e um desejos
que se acendem em mim quando te oiço. Explode
no âmago do ser quanto há de música nos beijos,
e a cópula acontece antes que tudo mude.

O já passado imigra para mim e seus voejos
são de ave que procura uma outra latitude.
Ouço Bach e não é por causa dos arpejos
que o poema se põe nu antes que eu próprio me desnude..

São os nuncas, que em mim bovinamente mugem,
que me arrancam da alma, sem dó nem tolerância,
esta infecta crosta da dor feita ferrugem.

Que Bach tome banho é de suma importância,
para que seja ouvido limpo de babugem…

( Serão coevas, afinal, a dele e a minha infância ? )




















CIO NO FARO






Os versos fogem do meu próprio aquém
( quase os não ouço ) e sobro nos espaços
que vão diluindo os derradeiros traços
de um deus ubíquo, que, afinal, não vem.

Para testar esses teus olhos baços,
que vêem tudo - o mal, o nada, o bem -
quero vazar os olhos desse alguém
que há muito estende para mim os braços !

Pudessem esses versos, desde a boca,
que os diz inconsciente e louca,
chegarem até mim, cândidos, puros...

O último verso foi ( nunca mais volta ),
e a Alma erra, qual cadela solta,
anunciando o seu cio pelos muros...








O PERVERSO REAL






Chovem cinzas no céu da minha mágoa
e apenas é prevalecente a imagem
com que a luz urde e inventa esta paisagem
em que não creio. E, por isso, esmago-a
com a sombra excedente da voragem,
onde me perco e oscilo em vão; alago-a
e transformo-a em simples gota de água,
onde há substâncias que comigo reagem.

Sem ser chamado, vem à baila o outrora
desse país, que fica não sei onde,
embora nele viva e morra agora.

É lá que as pedras são entes sensíveis
onde apunhalo tudo o que se esconde
no coração das coisas invisíveis.











DESINTOXICAÇÃO TABÁGICA






Não fumarei mais ontens, nem que o tempo rance,
porque ao relento e à neve, há muito, o tédio foi
ressuscitar na memória um velho Tolstoi
que exuma de si próprio Rússias de romance.

Crispo as mãos, porque tudo, à minha volta, dói,
sem eu saber porquê. Como é possível que um deus lance
para o colo da alma um filho esfomeado, em transe,
que se me agarra ao peito e que não mama - rói ?

Deixei o vício de fumar os ontens - temo
que me intoxiquem as memórias do que fiz...

Ouço o arfar de um velame e o fôlego dum remo,
chego ao portal em sombra aberto e, mãe viúva,
não fumo os ontens, mas escrevo e ilustro a giz
palavras feias a insultar a fome e a chuva.




















MIOPIA INCORRIGÍVEL






Quem me ergue o ser às grimpas impolutas
das glórias húmidas ?
Insónias e reflexos,
ou asas frouxas, que em lagoas nunca enxutas,
se perdem para sempre, órfãs de nexos ?

Ao longe, um par de paralelas, em permutas
de beijos nupciais, confundem os seus sexos,
perante anjos barrocos que descascam frutas
ofertadas depois a deuses circunflexos .

Dou comigo a aspergir, sobre a paisagem, neve
( sem uma lágrima sequer, sem qualquer ânsia),
despedindo-me assim de tudo quanto é breve.

É um gozo míope, que apenas se consuma
quando se sente a forma à mínima distância:


Aproximo-a de mim. E é bruma, apenas bruma...








SUICÍDIO SIDERAL






É do desde ao até que quero ouvir-me : Canta,
ó coro bárbaro de espasmos gregorianos,
e os deuses murcharão no sexo duma santa
como a recta comum à intercepção de planos !

Em travessuras de ânsia hei-de pintar a manta,
brincando com os meus muitos milhões de manos !
E havemos de fazer tanta algazarra e tanta,
que alguém há-de acordar mijando-se nos panos

de linho das galáxias.
- E é tudo quanto ouço,
porque, entretanto, há um astro suicida que agoniza:

Alguém que se atirou ao Infinito como a um poço
e, bem no interior de uma tristeza imensa,
faz flectir de emoção as neutras mãos da brisa
e humedecer de angústia os olhos de quem pensa.










VERDURAS






Este hoje é de ontem, é pretérito imperfeito
de tudo quanto insiste, agora, em ser do era.
Passam obreiros a fumar, ouço-os do leito
onde Cesário morre e eu durmo hojes de cera.

O facto de existir no dolo de ser feito
emana dos pauis e dá forma à Quimera,
que de mim nasce e displicentemente enjeito
no espaço cósmico onde nada a espera.

Loucura minha inútil, pois não passo
daquele ponto gerador da semi-recta
que persegue o seu fim e em vão se cansa e perde
nas entranhas da Luz .
( É na verdade verde
tudo o que inunda e estagna na alma do poeta ).
.










UM QUALQUER NATAL






Torço e retorço vimes de ânsia que não vergo
e tusso abóbadas convexas e prostradas
no chão de naves, onde esvoaça um tantum ergo,
vindo de longe, muito longe... Há sete espadas
no peito dum luar, que só eu próprio enxergo.

Troco por túnicas de estopa enluaradas
os ouropéis , que me vestiram, e postergo,
deixando-os, por esmola, às urzes das estradas.

Este Natal é de quem foi - prescinde de asas
e espanta as aves, que regressam e agonizam
num cérebro onde Deus dormita insónias rasas.

Nas catedrais dobram os sinos ( soam gastos …)
Camélias morrem sós e em mim confraternizam :

Este Natal só pode acontecer se for de rastos !









DEFICIT






No universo do fruto,
que sensualmente trincas,
não há míngua de sol
e tudo é absoluto :

São os dentes ( que fincas
na polpa ácida e mole
do céu que em ti perscruto ),
que tornam lancinantes,
aos poucos mas de vez,
os versos com que dantes
te exaltava a nudez .



























SECANTES E TANGENTES






Na clareira em mim sucessivamente aberta por cada poema
que faço - clareira onde jazem os cepos das árvores cortadas
e em cujos cernes se inscreve ( e apodrece ) a sua idade –
a minha alma contra o Sol blasfema,
de mãos dadas
com a falácia da luz, a verdade da sombra e a minha própria
/ ambiguidade,

( Secantes e tangentes
que não cortam nem tocam afinal
o quer que seja ).

E é por isso que, quando em ti me sentes,
o nosso amor é apenas gloriosamente carnal :

Quem o exige é o deus que nos maneja.





















MEANDRO OMITIDO POR MERA ESTRATÉGIA
NUMA CARTA DE NAVEGAÇÃO MENTAL





Ao cartografar o percurso de uma ideia apenas
exploratória,
que se me impôs ao traduzir para o real
a luz solar desta misteriosa tarde estival
comum e sem história,
não registei, de malandro,
o mais pronunciado meandro
do seu trajecto.

E cá estou à espera, escondido nas margens
da Sombra recorrente,
que, por força do espanto, se sobrerrealize
( fora ou dentro de meu ser )
o insólito objecto
cuja verdade, através dos sentidos e em mim,
se oculta e mente.























22:55:09






INSECTOS NUM CANDEEIRO EM NEW YORK


Inesperadamente, um corte
na carne da alma e a consequente hemorragia
que, por definição, nada mais há que a estanque
a não ser a morte
mais recôndita ou o torniquete do sol ao meio-dia.
Um substrato ianque
perpassa em tudo e tudo invade
desde a sombra mais secreta
à mais cristalina claridade
O sexo transformado em fast food do poeta
deixa Withman, perdido em Nova Iorque,
no seu mais nocturno e escuro beco sem saída,
a construir um monumento ao fácil e imediato,
e deixando que a Liberdade enfim se enforque
num candeeiro apagado da Quinta Avenida.

Qualquer drama, porém, vai muito para além do derradeiro acto.



















16-11-2002 10:23






Nas mais vetustas memórias alguém abriu fissuras
- inesperados interstícios de um tempo ensimesmado e falso,
onde por vezes se instalam e germinam por milagre de origens obscuras
as sementes que a chuva e o vento preservam do percalço
de morrerem à míngua.

As palavras viajam do cérebro para os poemas
à revelia da língua:

Por isso são extremas
a sua dimensão e a sua essência.

Daí - sabe-se lá porquê -
a ignorada mas real eficiência
dos versos que teimosamente construo e ninguém lê.
























21-2002






No canto mais sombrio da memória - curral onde um boi paciente
/ dorme
deitado sobre a própria bosta,
é que o tempo fermenta e tenta dar resposta
ao desígnio do Cosmos em se manter enorme.


Um atavismo rural eiva-me os poemas
e as sensações que os tecem
são sempre autênticas e extremas.

Nas águas límpidas dos rios, em que lavo os pés
sujos de terra, meus versos em luz se desvanecem
e nem sequer reparo que as conspurco.

Urbanamente rodeado de lustres, tapetes, canapés,
instalo-me num deles e ali fico a fumar um cigarro extralongo turco.





















28-11-2002






Há um cálice quebrado neste instante bem lá dentro

das minhas mãos que se apertam e sangram de um furor

que se incendeia quando me concentro

em tudo o que me vê e eu não consigo ver ao meu redor.


( Qual Graal, qual quê ?

Sou louco, mas não tanto ! )

E que saiba, quem este poema lê,

que nunca esse Graal foi sacrossanto;

e que afinal o Rei Artur

era apenas suposto

ser um calembur

de péssimo mau gosto..














INESPERADA E BREVE APARIÇÃO DE SELMA LAGERLOF






Do assoreado rio que desagua na intimidade do momento,
em cada segmento
do seu curso em que me decomponho,
ante o escárnio de um mar libertador, que nunca alcanço,
drago o lodo e os astros de passados céus nocturnos-
- sedimentos de um inacabado e já longínquo sonho
em que viajava pelo Cosmos, às cavalitas de um ganso,
em pijama e de coturnos,
compondo às escondidas de Selma obscenos versos
mal-amados.


Esses poemas ficarão imersos,
( tal como em herméticos frascos de formol
os embriões e os fetos malformados ),
numa solução de galáxias e de gritos,
apenas para espanto e horror de quem ama mais que tudo o Sol
e o honra e sacraliza nos seus ritos.





















ACENO A UM VERÃO QUE SE APROXIMA






Há tesouros de pólen escondidos

nas mais recônditas ilhas

dos nossos cinco oceânicos e pacíficos sentidos -

- não nas axilas, nem no côncavo das mãos, nem nas virilhas,

jamais no cérebro ou no sexo,

nem noutro qualquer lugar do nosso ser físico ou mental ,

apenas num recanto do gigantesco gineceu do Cosmos, onde o espera um
/ deus convexo.

É o pólen - esperma que pressente o solstício do Verão

para enfim fecundar no caos primordial

a existência ovular da criação.

E, enquanto a primavera se desnuda,

aceno ao Verão que se aproxima e ao longe me saúda.














GÉNESIS DO ABSTRACTO GEOMÉTRICO






Há um nu feminino, preso no estirador da memória,
à espera que o desenhem e o desencarnem finalmente.

E apenas com a régua e o esquadro, usados de forma aleatória
pelo poder obscuro e místico da mente,
me é lícito atingir aquele desiderato.


E é por causa disso
que deste poema, desenhado e confinado a um drama de um só acto,
só vai sobrar o esquiço.

























SALMO, QUE CONHECI NUM LIVRO VELHO,
COMO EPÍGRAFE DE UM POEMA NADO-MORTO





"QUERO QUE MINHA LÍNGUA SE COLE
AO PALADAR, SE DE TI ME ESQUECER."

( SALMO: 136; VERSÍCULO: 6 )
































CONTINGÊNCIAS A NÍVEL CÓSMICO






Foi por um triz

que não os apanhei – a mim e à Paisagem,

em flagrante delito de traição conjugal.



Ainda bem que o acaso assim o quis,

pois poderei desse modo, sem perder dignidade, encetar a viagem

do definitivo retorno ao Caos inicial,

com a nudez da alma aconchegada ao meu invés castíssimo e feliz.
























MOMENTO EM AZULEJO BARROCO






Reclamo, com a legitimidade que me assiste
enquanto parte viva do todo a que pertenço,
o direito a ser triste
e a encharcar teu solícito lenço,
não de lágrimas potáveis bacteriologicamente puras.
mas do ranho obtido de abusivas macerações da mente.


E acontece também que, sendo eu uma das tuas criaturas,
preciso saber, meu deus sub-reptício e ausente,
porquê, quando vais visitar esse painel de azulejos,
/não me incluis
na multidão dos anjos que o povoam, nus e azuis,
e aos quais cobras em beijos
de paixão sem nexo
o aluguer da núvem que lhes tapa o sexo.




















DECLARAÇÃO DE AMOR






Amo a palavra quando, despida da nudez com que se veste,

deixa de ser criatura cerebral

e se transforma, sem nada que o conteste,

em algo sideral.






























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